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BELO MOMENTO

--------Há meia-dúzia de anos atrás, em passageiro avistamento, já ambos tínhamos estado no mesmo local de convívio numa sessão de fado. Desta feita, através do relacionamento com Manuel Morais, conheci deveras a Alice, a do Vale Formoso, uma senhora assaz dinâmica e empreendedora que resolveu meter as décadas da vida na gaveta e empolgar-se no positivo sentido da existência.
--------Um passado dia destes a Alice combinou encontro comigo a fim de que me reencontrasse com um amigo comum que não via há bastante tempo, com o Tinoco, que desejava fazer-me uma surpresa. Ao princípio da tarde, na companhia de uma outra senhora sua amiga, entrei no seu automóvel para irmos algures sem sequer me importar para onde ia.
--------Estacionada a viatura, limitei-me a seguir no passo das duas senhoras. Entramos num salão que estava animadíssimo com música de baile à moda antiga. Cerca de meia-centena de veteranas e veteranos dançavam garbosos e em rigor de estilo uma rumba. Lá estavam na execução musical o Tinoco e seu filho, actuando como se fossem uma orquestra inteira.
--------Ao intervalo, enquanto tomava no bar uma cerveja, o Tinoco apresentou-me um exemplar de uma pequena comédia que escrevi em 1986 com o título de «Rir é o melhor remédio». Claro, fiquei imediatamente emocionadíssimo sob a recordação de uma época que, em vertigem de desamor, foi contudo amaciada por aquele agradável evento cultural em que também participei.
--------Na ronda musical que se seguiu, após o Tinoco me ter homenageado publicamente evocando meus pendores poéticos, fui amistosamente aplaudido, bebi, dancei e até cantei três versos da «Igreja de Santo Estevão»: Mal que batiam Trindades / reunia a fadistagem / à porta da santa igreja...
--------Bom, não dei pelas horas e senti-me em esplêndido estado de espírito, como se levitasse, sem saber o que dizer, completamente absorto no meio do entusiasmo daqueles benquistos e harmoniosos folgazões. Para boa memória, aqui deixo o meu muito sincero obrigado ao Tinoco e à dona Alice. Como usei por alguns momentos o seu marialvíssimo chapéu preto, em vénia, tiro-lhes uma imaginada chapelada. = 18/12/2007 - Torre da Guia

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